11 de nov. de 2010

Retrato de uma Saga cearense: Parte 1

14/03/2007, último jogo que assisti in loco do Botafogo, com vitória do Glorioso por 2x1 no Ceará na Copa do Brasil. Naquele dia, não me senti bem um torcedor, afinal eu estava na torcida do time local, por falta de companhia pro setor visitante. Comemorava os gols timidamente, com uma brecha entre os lábios que para os especialistas da Monalisa seria considerado um sorriso de orelha a orelha.

Esse ano foi diferente, diferente porque pela subida do Ceará à 1ª divisão, não dependeria de chaves ou cruzamentos para ver o Botafogo novamente. Dessa vez tinha dia e hora certos para reencontrar em campo o amor não carnal da minha vida (o que não tem em carne, sobra em luz).

Tudo preparado para o dia 14, conversas animadas com torcedores de outros estados sobre caravanas e tudo mais. Mas peraí, estamos falando do Botafogo, quando é que algo é certo e líquido pro clube? De alguma forma, a partida foi passada para o dia 10, uma quarta-feira. Noves fora o fato de prejudicar MUITA gente, eu sabia que tinha sido agraciado e não poderia desperdiçar essa chance após mais de 3 anos de jejum, independentemente das condições. Fizesse chuva - de canivetes - ou sol, eu TINHA de estar lá.

A ansiedade foi maior nos dias antes da chegada. De certa forma acredito que por poder participar do treino e do jogo, atuando como um torcedor normal, que influencia de alguma forma o seu time, baixou a ânsia. Mas não a adrenalina.

Pra começar, o dia do desembarque: Logo pela manhã, o irmão alvinegro Gustavo colocara o horário da chegada do time aqui, 19:00 horário local. Saio 1h30 minutos antes, só que Fortaleza não é lá uma cidade tão boa em matéria de transporte público (assim como várias outras cidades). 20 minutos de praxe perdidos na parada, pego o coletivo rumo ao terminal. Sou a única alma a estar trajada com uma camisa botafoguense em todo o caminho até o terminal, aqui a exclusividade é gigantesca. 15 minutos de viagem. Terminal. Nas outras 3 vezes que peguei o ônibus rumo ao aeroporto de lá devo ter tido muita sorte, sempre tinha um em pouco menos de 15 minutos. Naquele dia, não. Soube lá mesmo que a frota era de 3 ônibus apenas. Minha barriga gela, os minutos vão passando como em uma esteira em alta velocidade. Após quase 1 hora o ônibus chega. Já são 15 minutos de atraso, um programa inteiro do Marcelo Adnet. Esperava que o avião fizesse o que faz melhor, pelo menos ali, atrasar. No meio do caminho, faltando uma reta pra logo depois vir a curva da avenida do aeroporto, o baque. Som estranho no motor, automóvel perdendo a força. Eu penso "Só porque eu sou botafoguense?". Todo mundo desce e eu, que já não tinha tempo, rumei com o famoso "pé-2" pra lá. Só era uma reta mesmo, uma reta beeem longa, mas uma reta. Um pouco de tensão por saber bem o bairro onde estava, mas ok. Passo as 2 avenidas (sentido ida e volta) com carros tendo permissão pra correr, me senti o Harrison Ford em "O Fugitivo". Adentrando o aeroporto, encontro pouco antes da entrada o Gustavo e o pai dele. Meu cérebro havia entendido a mensagem, minhas pernas imediatamente pararam a marcha. O suficiente para eu sentir as "batatas" chorarem. Peguei uma carona com o Pedro Henrique e o JP até a faculdade onde fui pra casa. Depois disso, eu tive certeza de que NADA impediria minha ida ao jogo.

Pra começar, a idéia de ir ao treino na manhã do dia seguinte. Dei meu jeito de convencer meu pai a me deixar no ponto. Errei o posto mas o Neto me salvou de perder a oportunidade. Reunião rápida com o pessoal e a novidade, não seria no campo do hotel que eles treinariam, mas no CT de Itaitinga, a 20 kms de Fortaleza. Era só seguir a BR, mas tirando o Léo, nós não sabíamos bem como chegar. Depois de pagar um moto-taxi pra guiar, chegamos ao local. Portão fechado, mostrando o quanto a diretoria se preocupa com o bem-estar de sua torcida além Rio. Sem problemas, o Serjão foi muito ídolo e segurou o portão pra gente entrar. Invasão nada, isso se chama muito amor e uma dose exponencialmente fanática de loucura. Rachão descontraído, LF dando voltas no campo ao lado dos 3 contudidos. Ou seja, ele normal = um contudido. Tive meu momento tiete, pegando autógrafos e tirando fotos (Manda logo elas, Neto). Ivan (segurança do Botafogo) teve seu nome cantado em coro. Loco assediado demais. Ele parece se incomodar ou estranhar toda aquela gente de tão longe o tratando tão bem. Mas em campo ele resolve, então tudo bem.

Detalhe vai para a missão "Pergunta pro Lúcio Flávio". Fui lá eu, atrás dele, perguntar sobre a carta de uma amiga. Sessão jornalística agora:

Eu: - Lúcio, Lúcio - ele olha para mim - tu leu a carta? - o povo atrapalhando um pouco
Ele: - Tudo certo - e aperta minha mão
Eu: - A carta da (...)? Tu leu?
Ele: - Tudo certo

A cotação dele para mim é baixa, admito, mas por respeito à pessoas que gostam dele (só porque gosto dessas pessoas e não vou fazer confusão por quem não merece), mas depois dessa ele caiu ainda mais. Não deixei transparecer pois sabia da responsabilidade em elevar o moral da equipe antes do jogo.

Loco é um gigante. Perto dele eu sou bem normal. Mediano. Falar que ele é simpaticíssimo, muito gente boa seria mentir sobre minha impressão, mas ele se mostrou muito respeitoso com a torcida. Sabe a condição de referência na equipe mas só a tem porque de fato ele faz em campo.

Depois disso, casa e a expectativa pro dia seguinte.

Chega o dia tão esperado. Ligações pra lá e pra cá, enchendo o saco do Pedro Henrique e do Neto, principalmente... eu não tava muito situado se tava sendo chato ou não, a verdade é que me permiti um dia pra ser fanático ao extremo. Comprei alguns balões com o Pedro e pedi pra ele levar a maior parte, já que eu ia chegar mais tarde. Dito e feito. Engarrafamento vindo pelo Montese, com o Neto ajudando a levar este pobre escriba à partida onde ambos encontrariam boa parte da razão de suas vidas: o Glorioso.

Nem tudo são flores, então faltando uns 20 minutos ainda demos uma volta completa no estádio para chegarmos exatamente onde tinhamos chegado. Povo daqui não sabe dar informação ou fez de má vontade mesmo...

Chegando lá, me surpreendi com a enorme quantidade de botafoguenses presentes. Tudo bem que conheço uma leva desses, mas ainda assim era gente demais pro que eu esperava. Além do Neto, a quem eu agradeço a carona, também pude celebrar o botafoguismo com pelo menos 1500 irmãos que fazem essa estrela brilhar não importa quão distante seja essa missão. Os contras serviram pra demonstrar bem que antes de tudo, o sertanejo é um forte, como já dizia Euclides da Cunha.

Você vai me perguntar sobre o jogo, mas esse é assunto pro próximo post.

2 comentários:

Le Casa Home & Decor disse...

Muito bom o texto! Emocionante.
Saudações alvinegras diretamente de Sampa.

= Botafoguenses em Fortaleza = disse...

Bom ver a torcida em júbilo, mesmo longe do time.